O primeiro turno das eleições de 2026 foi realizado neste domingo, 4 de outubro, definindo os nomes que ocuparão governos estaduais, cadeiras nas câmaras e no Senado. Mas ainda há um cargo nacional que ficou em aberto: a Presidência da República. Agora, o Brasil se prepara para uma nova etapa do processo eleitoral, o segundo turno das eleições, que ocorrerá no dia 25 de outubro e definirá quem estará à frente do país pelos próximos quatro anos. E essa é uma escolha que exige responsabilidade e atenção. Mais do que acompanhar discursos e promessas, é fundamental conhecer o histórico das candidaturas, analisar os programas de governo e compreender o que cada projeto propõe para o Estado, para as instituições públicas, para os direitos trabalhistas e sociais, adquiridos e conquistados por trabalhadoras e trabalhadores, para a manutenção e para o fortalecimento dos serviços públicos essenciais à população. O debate aqui vai além da disputa entre esquerda e direita. É preciso, neste momento, olhar para propostas concretas. E, agora, a Fenajud (Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário nos Estados), que representa mais de 170 mil trabalhadoras e trabalhadores em todo o país, ressalta o que está em jogo nessa disputa.
No programa de governo apresentado por Flávio Bolsonaro, um dos principais pontos é a redução de despesas e dos investimentos na máquina pública. E o que chama atenção, sua equipe econômica tem inspiração em reformas de viés liberal, como as promovidas por Javier Milei, presidente da Argentina. Outro aspecto que merece atenção é o andamento do histórico de governo de Jair Bolsonaro (2019–2022), pai do candidato, que no período em que esteve à frente do Executivo Federal, passou anos sem conceder reajuste salarial linear para diversas categorias do funcionalismo público, situação apontada por entidades sindicais como fator de desvalorização dos trabalhadores públicos.
Há ainda a proposta de uma reforma administrativa ampla no projeto de Flávio Bolsonaro. O documento do candidato prevê a redução de ministérios, a diminuição de cargos comissionados e despesas administrativas, além de uma ampla revisão das normas relacionadas à gestão pública. Embora a medida seja apresentada como forma de combater privilégios e aumentar a eficiência, a reforma administrativa (PEC 32/2020) na verdade prevê mudanças profundas na organização da Administração Pública, incluindo alterações nas formas de vínculo, dando fim aos concursos públicos; alteração nas regras de cargos e funções e na participação de entidades privadas na execução de serviços públicos, ampliando a terceirização.
Também merece atenção a composição da equipe responsável pela campanha e pela formulação de suas propostas. O coordenador da campanha foi relator da reforma trabalhista aprovada em 2017, uma das mudanças mais profundas e impactantes, de forma negativa, na legislação trabalhista brasileira das últimas décadas, e posteriormente ocupou a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho durante o governo Jair Bolsonaro, período em que esteve à frente de alterações nas normas de saúde e segurança do trabalho. Na área econômica, a coordenação reúne nomes como Daniella Marques e Adolfo Sachsida, além de integrantes que tiveram atuação no Ministério da Economia durante o governo Paulo Guedes, entre eles Myrian Prado, que ocupou a Secretaria de Desestatização. A trajetória desses nomes também precisa fazer parte do debate eleitoral, porque ajuda a compreender as concepções de Estado, trabalho, previdência e políticas públicas que podem orientar um eventual governo.
O governo Lula também precisa ser cobrado pelo que deixou de fazer e pelo que propõe para os próximos anos. Entre os tópicos que defendemos está: a regulamentação e efetivação da negociação coletiva no serviço público; garantir uma política permanente de valorização das carreiras; fortalecer o serviço público; e impedir a precarização das relações de trabalho. Além disso, Lula precisa negociar no Congresso o fim do confisco das aposentadorias, levando à aprovação da PEC 6/2024. No campo do serviço público, a candidatura de Lula apresenta-se, neste momento, como algo necessário, pois há como principais diretrizes a manutenção do diálogo com o funcionalismo por meio de mesas de negociação com entidades sindicais, a recomposição dos quadros por meio da realização de concursos e criação de novas vagas em áreas estratégicas, além da valorização das carreiras, com retomada das discussões sobre reajustes e condições de trabalho. O programa de governo do candidato também defende a continuidade de políticas de inclusão, como as cotas nos concursos públicos, e o fortalecimento do Estado e de serviços públicos gratuitos, especialmente o Sistema Único de Saúde (SUS).
A comparação precisa ser feita a partir de medidas concretas, e não apenas de discursos ou promessas eleitorais. No campo dos direitos trabalhistas, o debate também exige atenção. Projetos associados à direita radical ou à extrema direita frequentemente defendem uma menor intervenção do Estado nas relações de trabalho, flexibilização de regras e redução de custos para empregadores, medidas que seus defensores apresentam como instrumentos para estimular a economia e a geração de empregos. Para trabalhadoras e trabalhadores, entretanto, mudanças dessa natureza precisam ser examinadas pelo impacto que podem produzir sobre estabilidade, remuneração, jornada, negociação coletiva e mecanismos de proteção social. No serviço público, esse debate ganha contornos ainda mais relevantes: propostas de enxugamento do Estado e de reestruturação das carreiras podem atingir diretamente direitos, condições de trabalho e a própria capacidade do Estado de oferecer serviços de qualidade à população.
Para os trabalhadores públicos, portanto, acompanhar esse debate é indispensável. Não se trata de transformar a eleição em uma disputa de ideologias. Trata-se de conhecer o que cada candidatura propõe, avaliar os impactos concretos dessas propostas e acompanhar de que maneira elas podem afetar os serviços públicos e os direitos de quem trabalha para mantê-los funcionando. Afinal, o serviço público pertence à sociedade. Por isso, em 2026, mais do que acompanhar discursos, será necessário ler os programas, conhecer as propostas e compreender suas consequências para o Brasil e para quem trabalha todos os dias na construção de um serviço público de qualidade.
Flávio Bolsonaro também questiona a participação sindical na formulação de políticas públicas. Essa visão ignora o papel constitucional dos sindicatos na defesa dos direitos e interesses das categorias e na negociação coletiva. Por isso, nas eleições de 2026, é fundamental que trabalhadoras e trabalhadores se posicionem em defesa dos seus direitos, avaliem não apenas promessas, mas também o projeto de Estado, de democracia e de relações de trabalho apresentado por cada um.
Neste segundo turno, a Fenajud chama a categoria a participar, votar e escolher, com consciência, o projeto que melhor represente a defesa dos seus direitos, da valorização do serviço público e de um Estado comprometido com as trabalhadoras e os trabalhadores e com a sociedade.
Dia 25 de outubro, compareça às urnas e exerça seu papel.