Paralisação de caminhoneiros é um misto de greve e locaute, diz sociólogo do trabalho

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A atual paralisação no transporte rodoviário brasileiro é um momento que ilustra como, no setor, os interesses de trabalhadores e das empresas podem se alinhar.

No momento em que uma crise simultaneamente o faturamento de transportadoras e a renda de trabalhadores autônomos, demandas como o reajuste no preço do frete e a redução nos dos combustíveis podem facilmente se tornar pauta comum das duas partes.

Ao lado da fragilidade política do governo, essa particularidade explica por que, na avaliação do sociólogo do trabalho Ricardo Antunes, professor do IFCH/Unicamp, os cinco dias de paralisações que tomaram praticamente todos os estados do país são uma mistura de greve e locaute (quando há influência ou apoio das empresas).

Na quinta-feira (24), o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, chegou a afirmar que há indícios de locaute. A Polícia Federal anunciou o início de uma investigação sobre a possível participação de empresas na paralisação. A situação não é exclusiva do Brasil: aconteceu nos Estados Unidos nos anos 1970, quando a crise do petróleo fez explodirem os preços dos combustíveis, e no Chile, na mesma década, no movimento que culminou com a derrubada do governo de Salvador Allende, exemplifica o especialista, que foi professor visitante na Universidade Ca’Foscari, na Itália, e na Universidade de Sussex, na Inglaterra.

Estrutura peculiar

Nas últimas décadas, a automatização dos sistemas produtivos e a tendência de avanço da terceirização tirou poder de barganha de muitas categorias tradicionalmente organizadas, como a dos bancários. Os caminhoneiros, contudo, não passaram pelo mesmo processo de “mudança profunda” que diminuiu o poder dos movimentos sindicais.

“Eles vivem uma situação ainda muito parecida com a que viviam em décadas anteriores –ou eu tenho caminhão e preciso mantê-lo, ou sou empregado de uma empresa que tem caminhão e presta serviços.” O Brasil tem ainda uma especificidade: é mais dependente do modal rodoviário.

“Hoje, nós somos prisioneiros disso”, diz o especialista, que publica ainda neste ano o livro “O Privilégio da Servidão – O novo proletariado de serviços da era digital”, pela editora Boitempo. A seguir, trechos da entrevista concedida à BBC Brasil.

BBC Brasil – O que a greve tem mostrado sobre a forma de organização da categoria dos caminhoneiros?

Ricardo Antunes – Em geral, essa é uma categoria que não tem uma solidariedade de classe construída, sólida. Muitas vezes, os caminhoneiros são os donos do caminhão e, por isso, frequentemente competem uns com os outros –mas se unem quando têm de negociar o preço do seu trabalho (o custo do frete).

Acesse a matéria completa, aqui.

 

Fonte: BBC Brasil

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